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Na manhã seguinte à minha morte por Meggie Royer

  • 7 de dez. de 2022
  • 2 min de leitura

Royer, Meggie. 'The morning after I killed myself '

(tradução livre)


Na manhã seguinte à minha morte, eu acordei.


Tomei meu café da manhã na cama.

Adicionei sal e pimenta aos meus ovos e com a minha torrada fiz um sanduíche de queijo e bacon.

Apertei uma toranja em um copo de suco.

Raspei as cinzas da frigideira e limpei a manteiga do balcão.

Lavei os pratos e dobrei as toalhas.


Na manhã seguinte à minha morte, me apaixonei.

Não pelo garoto da minha rua ou pelo diretor da escola.

Não com o atleta cotidiano ou com o merceeiro que sempre deixava os abacates fora da sacola.

Eu me apaixonei pela minha mãe e pela maneira como ela se sentava no chão do meu quarto segurando cada pedra da minha coleção nas palmas das mãos, até escurecerem com seu suor.

Eu me apaixonei pelo meu pai quando ele colocou meu bilhete em uma garrafa e o enviou para a correnteza do rio.

Pelo meu irmão que antes acreditava em unicórnios, mas que agora se sentava em sua mesa na escola tentando desesperadamente acreditar que eu ainda existia.


Na manhã seguinte à minha morte, eu passeei com o cachorro.

Observei a maneira como sua cauda balançava quando um pássaro passava ou como seu ritmo se acelerava ao ver um gato.

Vi o espaço vazio em seus olhos quando ele alcançou um graveto e se virou para mim para que pudéssemos brincar de pegar, mas não vi nada além do céu em meu lugar.

Eu fiquei parada enquanto estranhos acariciavam seu focinho e ele se deliciava sob seu toque como fez uma vez com o meu.


Na manhã seguinte à minha morte, voltei ao quintal dos vizinhos onde deixei minhas pegadas gravadas no concreto quando tinha dois anos de idade e examinei como elas já estavam desbotando.

Colhi alguns lírios do dia e puxei algumas ervas daninhas e observei uma mulher idosa através de sua janela enquanto lia o jornal com a notícia de minha morte.

Vi o marido dela cuspir tabaco na pia da cozinha e lhe trazer sua medicação diária.


Na manhã seguinte à minha morte, assisti ao nascer do sol.

Cada laranjeira se abriu como a palma de uma mão e o menino ao fim da rua apontou uma única nuvem vermelha para sua mãe.


Na manhã seguinte à minha morte, voltei àquele corpo no necrotério e tentei colocar um pouco de bom senso nela.

Contei a ela sobre os abacates e os degraus, o rio e seus pais.

Contei a ela sobre o pôr-do-sol, o cachorro e a praia.


Na manhã seguinte à minha morte,

Eu tentei me 'desmatar',

mas não consegui terminar o que comecei.


*DISCLAIMER: Este poema não tem a intenção de romantizar o suicídio mas sim de nos conscientizar sobre e preveni-lo. A todos aqueles que estão sofrendo e enfrentando demônios diariamente, saiba que você não está sozinho.*



 
 
 

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